terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Um pouco da história daqui

Independência

Confesso que não entendia o porquê das pessoas do Quebec de um modo geral, não gostarem de falar inglês ou de dar preferência ao francês.
Não foram poucas as vezes que devido à minha dificuldade em estabelecer uma conversa mais fluente em francês, mudava para o inglês, nessas horas duas coisas aconteciam frequentemente: ou a pessoa me ignorava como se não tivesse me entendido ou me respondia em francês.
Claro que isso não é uma regra, normalmente as pessoas são super receptivas e até tentam ajudar, porque na maioria das vezes as pessoas percebem que sou de fora e com boa vontade conversam em inglês comigo [exceto com o Victor, o Yuri e suas respectivas esposas pois só falam francês e russo, imagine um russo que tem um alfabeto, grafias diferentes terem que aprender duas outras línguas...], muitas até com muito sotaque, dá para perceber que o inglês não é tão praticado.
No início acreditei ser uma atitude política contra o imperialismo norte americano e coisas do tipo.
De certo modo estava certo e errado.
Sim, é uma atitude política, mas não necessariamente contra o Tio Sam somente, é uma questão política de independência.
Há alguns anos o Quebec vem lutando para se tornar independente do resto do Canadá, e plebiscitos sempre são feitos. No último deu 51% contra a separação e 49% a favor...
Vários são os fatores envolvidos nesse assunto, e os candidatos que são a favor da separação do Quebec também não são poucos, para falar sobre essas parte, conversei com o Normand para me ajudar a compreender. Com vocês, Normand Raymond:

“...tem gente que quer a independência a todo custo, não importando se é de direita ou esquerda. Dizem que o primeiro passo é fazer a independência e depois a gente verá o que se pode fazer. Eu não concordo com essa visão das coisas. O Partido Quebecois (PQ) é um partido que se disse ser de centro (nem esquerda nem direita), e é social democrata separatista. Foi criado com o objetivo de obter a separação e até a independência fazendo plebiscitos (referendos) com o povo, já fizeram três plebiscitos que saíram negativos todos. Mas para mim, é um partido burguês com ideologia nacionalista, e não se preocupa tanto para o lado social ou tanto para o povo. Se preocupa mais pelos interesses da classe alta quebequense, da burguesia quebequense. Fazer a independência com eles, sería nada mais que trocar patrão por outro patrão. Aqui, as pessoas em sua grande maioria não são politizadas e não se interessam em analisar o que aconteceria, nem as consequencias, sem ter nenhum plano bem definido antes de se fazer a independencia. Quebec Solidaire (QS), é um novo partido que é de esquerda. Agora têm ganhado um primeiro deputado nas últimas eleições provinciais, esse partido tem planos sociais bem definidos para todos. Eles estão a favor da independencia só se nós quisermos, mas não é o objetivo principal como o PQ. O mais importante para QS é o bem estar da gente, investindo mais na saude, estudos, meio ambente, e melhores condições de trabalho e justiça social para o povo. Para mais informações: Québec Solidaire - Parti québécois.”

Uma das grandes justificativas [ao menos que oficialmente falam] é devido ao estado de Quebec concentrar uma grande parte de língua materna francófona.
Aliás, um dia desses estava vendo um programa de humor aqui do Canadá de desenho animado onde os candidatos eram os alvos de gozação, e obviamente o primeiro ministro do Canadá também, foi bem engraçado.
Só explicando, o Canadá é dirigido por um primeiro ministro e é dividido em três territórios e dez províncias, e essas dez províncias são governadas por outros primeiros ministros e as cidades, como Montreal por exemplo, são governadas por prefeitos.


O Tio Sam de novo...

Caramba, como são chatos.
Pois é, os dirigentes e as classes dominantes dos Estados Unidos nunca tiveram noção mesmo, até aqui eles foram [são] malas, arrogantes e cretinos.
Estava estudando um pouco sobre a história do Canadá, e eles tentaram já invadir o Canadá algumas vezes, é claro que antes de se consolidar como nação, eles conseguiram roubar territórios.
Ainda conversando com o Normancha:

“Ou comprando outros como no caso da Luisiana: Aos poucos anos depois da conquista da Nova França pelos Ingleses, Napoleão vendeu o grande território da Lusiana aos Estados Unidos só por aproximadamente 15 000 000 $ (dolares), que nessa época era muito dinheiro."

Normal né? Se pensarmos na história, veremos que já invadiram e tomaram posse de terras dos índios, primeiramente, depois dos Mexicanos, agora dos Árabes! Oras, porque o Canadá, tão pertinho, não poderia ter umas terras tomadas? E tomaram algumas sim, e tentaram até invadir, mas falharam.

“A Primeira tentativa de invasão do Canada pela nova República Americana em 1775: http://frwikipedia.org/wiki/Invasion_du_Canada_(1775), e a Guerra Anglo-Americana de 1812-1814: http://fr.wikipedia.org/wiki/Guerre_anglo-am%C3%A9ricaine_de_1812. Algumas pessoas dessa época concordam que no caso de que o Canadá tivesse outra tentativa de invasões depois pelos Estados-Unidenses, não houvesse podido resistir mais por causa do fraco número de população do país.”

Aliás, estava lembrando um dia desses como funcionam os meios de comunicação, principalmente os filmes: quando eu era um menininho, bem pequenininho, uma “quiança” [um Suguinha júnior], eu me lembro dos filmes de caubóis onde os índios malvados precisavam ser detidos pois eles escalpelavam [rasgar com escalpelo, arrancavam o couro cabeludo com o cabelo junto] os pobres mocinhos...
Mais tarde estudando um pouco de história, através de alguns livros, artigos e textos, a gente vai descobrindo outras versões [normalmente a história é sempre contada a partir da visão dos vencedores, não dos vencidos].
Na real, eram os caubois bonzinhos que escalpelavam os índios, parte da “arrecadação” era usada para fazer lindas bonecas de porcelana para as filhinhas dos grandes fazendeiros e poderosos, mas na real era um modo dos mocinhos poderem ganhar um dinheirinho justo: o chefão da área pagava por índio morto, e para comprovar quantos índios “selvagens, primatas e atrasados” eram assas... hum... ahn... digo, quantos aborígenes a menos existiam, eles deviam trazer a prova e assim recebiam literalmente por cabeça.

“Pois sim! A prática do Escalpelamento foi introduzida pelos espanhois, ingleses e franceses, simplesmente para poder pagar aos soldados e mercenários um valor para cada um dos indios mortos durante confrontos con eles. Depois os guerreiros indios retomaram essa prática só para como troféus simbólicos: http://fr.wikipedia.org/wiki/Scalpation].”

Fantástico não?

Para uma próxima vez eu conto sobre outras curiosidades sobre a colonização, histórias de guerras, invasões e mais questões culturais.

Antes que me esqueça, contei com a ajuda no Normancha para esse texto, os trechos em itálico são de autorida dele assim como as sugestões de links.

Até mais.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mais um morador na casa [mensal, mas é]

David Caplam

Jovem senhor de cinquenta e seis anos se não me engano, com um visual meio “bicho grilo”, descedente de judeus que vieram para cá depois da primeira grande guerra mundial. De mãe descedente de poloneses e pai descendente de russos.
De cabelos compridos e brancos, barba grande e sempre com algum tipo de chapéu ou boina.
Outro que gosta muito da cultura latina, de lingua materna o inglês mas com um francês perfeito [inclusive me ajudando com conversação], compreende muito bem espanhol e um pouco de português, já viajou diversas vezes para o México, não sei se foram seis ou oito, sempre com o próprio furgãozinho.
Ele sempre vem todo começo de mês e fica uns dias aqui na casa do Normand. Explicando, ele trabalha com mel, ele a namorada e uns poucos amigos trabalham na produção de mel orgânico, eles fazem os contatos e vêm para Montreal todo início de mês fazer as vendas e novos contatos.
Ou seja, todo início de mês ele fica aqui mais ou menos durante uma semana e depois volta para a casa dele que é no interior entre as montanhas.

“Mas porque raios ele está falando desse tiozinho agora?”

Esses dias ele estava falando sobre alguns sintomas e males recorrentes em algumas pessoas do Canadá, e em especial onde ele mais conhece que é o Quebec.

Estavamos conversando sobre o excesso aqui: as pessoas tem tudo e querem ter tudo em quantidade e volume, comida, bebida, cigarro, máquinas, aparelhos... tudo em excesso [vejam, não é uma observação minha, é a de mais um quebecuan que veio me falar sobre isso].
David falou que ele gosta de ter apenas o que é essencial e o que precisa, em tudo: seja para comer, seja para trabalhar ou para o dia a dia. E enquanto falava, sempre procurava estabelecer comparações com o México, onde ele dizia que apesar das pessoas viverem em dificuldades financeiras e o sistema público ser caótico e precário as pessoas são mais felizes e tem mais alegria.



O social e o público no Canadá.

Aqui no Canadá é bem diferente na realidade brasileira e, com certeza, de qualquer país da América Latina.
Existe, por exemplo, no Canadá um departamento chamado bem estar social, em que, se por caso voce estiver desempregado, receberá por mês do governo algo em torno de CAD 400,00, é pouco até para os padrões daqui, mas é algo.
Sem contar que todo sistema de saúde é gratuito, com exceção de odontos e oftalmos, [com relação a oftalmo, excluem-se as operações que são custeadas pelo governo], um sistema de transporte eficiente e por um preço acessível.
Tudo relacionado às finanças e impostos e taxas é bem simples e direto. O governo é bem claro e todas as pessoas tem acesso ao modo de funcionamento, nas notas fiscais vem sempre descrito o valor sem imposto e com imposto. O cidadão aqui sabe quanto está pagando de imposto em cada compra que efetua.


Voltando à nossa conversa

David observou que apesar da precariedade do sistema publico ou a ineficiência desses tópicos, no México as pessoas vivem felizes e tem mais alegria do que as daqui que possuem muitas coisas além de vários benefícios se comparado à países da América Latina ou do dito terceiro mundo.

No Canadá de um modo geral, mais em Quebec especificamente, tem muita gente que se suicida, isso é um fato, triste mas é.
Sobre isso falarei mais para frente.

Um vazio existencial que precisa ser preenchido com coisas: máquinas novas, computador novo, muitas roupas, muita tecnologia, comida, bebida, diversão, prazeres... Muitas pessoas moram sozinhas, tem sua independencia financeira, alguns uma boa estabilidade financeira, muitos tem carro, mas... parece às vezes faltar algo.

O David disse algo muito interessante:

“I’m not a religious man, but, every day, when I wake up, I say: thanks... gracias por la vida!”

Continuou falando que as pessoas deveriam ser gratas pelo dom de existir, pelo dom de viver, de poder fazer coisas, de conhecer, aprender, ensinar, ver, ouvir, comer, sentir...

Eu traduzi para ele a minha versão, que é procurar sempre ter um coração grato, apesar de qualquer coisa.


Coincidências

Nesses dias eu recebi uma mensagem da minha namorada pelo emeio, e vi que tinha muita relação com o que estou escrevendo agora:

“...Estamos sempre reclamando de alguma coisa, eu sou assim, sempre tem algo que não esta muito bom, o cabelo, a pele, o salário, mesmo estando saudavel e sem dor...
Precisamos aprender a valorizar as coisas boas... a cama pra dormir e descansar, o trabalho que nos da o sustento, o alimento de cada dia, a condição que temos de comprar um remédio ou ir ao medico pra cuidar da saude...”


Como diz o ditado: quem tem ouvidos para ouvir... ou no caso, olhos para ler...
Não adianta, sempre vai ter alguém que vai ler e vai arranjar desculpas, pretextos e dizer: “ah, mas e se... ah, mas no meu caso... ah, mas porque eu.. ah, mas... ah, e se...”
Sempre, sempre, sempre.

Nós sempre achamos que se tivessemos mais dinheiro as coisas seriam melhores, se fizessemos uma plastica aqui e outra ali nos sentiríamos melhores, se tivessemos um carro melhor não teriamos tanta dor de cabeça, se tivesse uma casa na praia ou no interior poderíamos descansar mais, se ficassemos famosos e conhecidos na telinha tudo seria diferente.
Às vezes sempre achamos pretextos para justificar nossas incompetências e nosso medo de nos encararmos, de estar em contato com o que realmente somos, sentimos, pensamos e queremos.
E muitas vezes, necessariamente o que será melhor para nós não tem que ser algo bom... Só com o tempo amadurecemos e aprendemos [se quisermos] a ver que algumas coisas que nos acontecem são necessarias para que nós acordemos, ou percebamos erros e pontos fracos ou atitudes que devem ser mudadas.


As nossas necessidades

Sempre mudamos de idéia quanto ao que “seria bom” para nós e “melhoraria” nossa vida: primeiro reclamamos que não temos um carro, que se tivessemos um carro tudo melhoraria.
Conseguimos o carro.
Agora como tem muito transito, uma moto não seria uma má idéia... Todos os problemas se resumem ao transito e para a aquisição da moto.
Conseguimos a moto.
Mas como trabalhamos muito para pagar a prestação da moto [isso se as do carro estiverem quitadas], ficamos muito cansados... Ah... se tivessemos uma casa na praia...
Depois de um tempo, temos a casa na praia.
Pois é... muito trabalho para pagar muitas contas... prestações que devem estar faltando de algum auto, outras da praia... E os empréstimos feito no banco para a casa própria?
Mas é melhor trocar o carro, afinal, já faz um bom tempo que estamos usando ele e agora, indo para a praia, não dá para ter um modelo economico, precisamos um mais potente para levar família e amigos.
E trocamos de carro. Muitas vezes sem ter pago o outro.
Mas a praia já não é a mesma: afinal, além da rotina de todo esse tempo indo sempre para a praia, precisamos variar um pouco e ela já não é a mesma, muita gente, praia suja, transito todo fim de semana... O interior, o campo! Isso, boa idéia.
Lá vamos nós nos matar para conseguir ter um pedacinho bucólico no interior para podermos ter paz e sossego, longe de transito, poluição, barulho, stress...
Mas para ir para o interior... é melhor ter um outro carro, tipo um estilo jipe ou com tração nas quatro rodas, grande e que aguente o tranco e toda família, amigos e chegados.
Muito bem. Mais um carro, afinal, é melhor prevenir do que remediar, afinal, para ir para o interior não é nada fácil.
E finalmente temos nosso pedacinho de terra em algum lugar no interior.
Mas depois vemos que não aguentamos mais os pernilongos, borrachudos, bichos picando a gente, saudades dos grandes centros comerciais da cidade, as emissoras a cabo não funcionam, não tem nada... Os filmes da locadora são todos antigos e o acesso à internet não é tão bom e o laptop deu problema de novo, o Windows vista deu pau e voce perdeu todo HD mais uma vez. Ótimo fim de semana.
Puxa, de vez em quando ficar na cidade não é tão ruim. Só precisamos fazer alguma coisa para prencher nossas necessidades [?], dar uma volta, um passeio no final de semana ou nos feriados pela cidade.
Ai está na hora de trocar o antigo carro, melhor ter um modelo esportivo, mais bonito, só para um lazer...
Mas poxa, não dá para sair pagando de bonitão, de bem sucedido com algumas "musculos" a mais que não existem no livro de anatomia [aqueles que fizeram voce perder algumas calças por não entrarem mais], então, nada como uma plástica ou lipoaspiração para dar um upgrade no visual. Afinal, imagem é tudo... não é?
Afinal o que as pessoas podem pensar de nós é algo muito importante. Não é?
E assim vai nosso ciclo de “necessidades”, e cada uma delas vai nos levando à outra que nos leva à outra e que leva à outra e então surge a oportunidade de ter isso e depois aquilo...
E continuamos buscando coisas [dinheiro-coisa, pessoas-coisas, objetos-coisas, auto-coisas, móveis-coisas, sexo-coisa, relações-coisas, coisas-coisas...] para preencher as nossas “necessidades”.

Talvez estamos nos esquecendo de algumas coisas.

De ouvir as nossas reais necessidades, de nos preocupar mais com as pessoas que realmente nos amam e nos preocupar em ser belos para quem nos ama e amamos.

Ou ainda, sermos belos para nós mesmos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tudo Globalizado...

Impressionante.
Num dia desses, estavamos no café da manha, e o Tayo deixou ligado numa emissora do Chile, só explicando: aqui tem diversas prestadoras de serviços de programas de televisão, e entre elas estão canais latinos por exemplo; e o Normand também gosta de assistir os canais de língua espanhola, então fiquei vendo como é que era a parada.
E nesse belo dia estava passando um programa no mesmo molde dos similares tupiniquins, tipo esses que passam hoje em dia, na nossa telinha.
Bom, no Chile era quase a mesma hora que no Brasil, ou seja, devia ser umas onze horas da manhã. Horário tido como livre, para todas as idades e que normalmente, é sempre destinado às crianças.
E o que tem isso demais?
É que me detive prestando atenção numa matéria muuuito "interessante", educativa e construtiva sobre uma chilena que estava contando tudo sobre sua “importante” participação no miss mundo.
E o que isso me fez lembrar do “nosso glorioso"?
É que lá pelas tantas, o sensato programa começa a mostrar trechos da bunita tirando a blusa sensualmente ficando só de lingerie preta...
Depois ela tomando banho de espuma numa banheira com o apresentador do programa...
Numa outra filmagem ela de dominadora segurando o dito cujo pela coleira [e ele devidamente trajado, de submisso, claro]...
Enfim, vários trechos bem educativos que podem vir ajudar na orientação e comportamento sexual que ficavam sendo repetidos diversas vezes como se fosse uma especie de "mantra televisivo", até a exaustão com diversos closes e até em câmera lenta.
Obviamente, a mídia é um veículo de comunicação que traz valores e conceitos, conceitos estes que devem ser aprendidos desde a mais tenra idade, para os petizes crescerem aprendendo os importantes preceitos para nortear suas vidas, e de como devem ser as coisas, claro, e o que é realmente importante e deve ser almejado!

O fascínio da fama [fama a qualquer custo e como valor máximo a ser almejado].

Sucesso rápido e imediato [ou seja, sem esforço algum]

Super instrutivo para um horario tão apropriado.

É importante trabalhar conceitos e ideologia desde cedo.

Mediocridade globalizada.

Ótimo, tá tudo certo.

Depois eu que sou chato...

sábado, 6 de dezembro de 2008

Cartas para a Lullis

Saudades da princesa
Um dia desses estava vendo um trecho dos “relatórios diários” que eu envio para a minha patroa onde relato sobre coisas do dia a dia, coisas dos treinamentos, coisas curiosas, coisas de finanças, coisas de trabalho [para variar], coisas da vida... A saudade é uma coisa.
Nessas mensagens tinham "coisas" interessantes.
Especificamente, nesse, tinha uma parte que revendo achei interessante e gostaria de compartilhar aqui com amigos, familiares, colegas, conhecidos e desconhecidos.

Coisas simples
Num dia desses, nos primeiros aqui, já era bem tarde e ainda não tinha jantado.
O Tayo ficou no skype falando com a sua “enamorada” e só saiu bem tarde, e eu esperando para ver o que iríamos jantar, eu já estava desesperado...
Ao sair, viu que não tinhamos muita coisa e disse:

"Está bem, está bem... vamos fazer macarronada com carne".
Até ai parece tudo ok certo? Não é nada mal macarrão com carne.
Mas quando eu vi que ele não ia usar molho de tomate... Confesso que fiquei preocupado.
Mas não é o que ele sabe fazer as coisas mesmo? Eu sempre comi macarrão com molho ou ao alho e óleo, mas sempre com alguma coisa, ervilha, carnes, alguns acompanhamentos... Agora, só carne e macarrão? Sem molho vermelho ou branco?
Fiquei receoso como seria essa janta, de certo modo dessa vez eu estava duvidando da capacidade dele de fazer algo saboroso como é de seu costume.
A receita era muito simples: basicamente macarrão e a carne.
A grande diferença está em como fazer as coisas.
Na carne, apenas tempero basico: ele frita a carne até sumir todo o caldo e começar a deixar o alho tostadinho. Só depois que está quase grudando na panela, joga-se um pouco de vinho branco e vai mexendo até ficar com a consistência adequada.
Tira a carne e joga o macarrão no molho e mistura bem.
O pior é que ficou bom demais.
Comi até.
Lição?
As coisas boas não tem que ser necessáriamente as mais dificeis ou complicadas, as vezes são mais simples do que pensamos.
Precisamos é saber como fazer.
Tem coisas que só com o tempo aprendemos. O tempo nos ajuda a ter experiencia de tornar o simples saboroso e gostoso.
Não seria a vida isso também?
Sendo simples, ser saboroso e eficiente.
Fazer do trivial extraordinário.
Do comum extrair o inédito.
Tendo poucas coisas, fazer muito.
Algo muito bom e muito eficiente.
Saber como usar o que se tem.
Saber o melhor modo de se usar os ingredientes.

Montreal, Canadá.
Quinta-feira, 27 de novembro de 2008 4:02:23

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

As comidas...


Aqui só tem fast food

Assim que cheguei aqui, o que fiz logo depois que me acomodei na minha nova casa?

Sim, fui andar pelas redondezas para me orientar e conhecer e reconhecer o local.

Mas ok, mas o que eu fui procurar?
Isso mesmo, lugares para comer...

Algo que achei curioso, foi o fato da rua de trás de onde moro, a St. Hubert, ser uma grande rua comercial com fast food de tudo quanto é coisa a cada esquina, e entre as ruas que a cortavam também.
Tem de tudo: comida tailandesa, vietnamita, chinesa, japonesa, árabe, italiana, brasileira, hamburgueres, hot dogs, vários cafés, diversos fast foods de pizza e muitos de frango.


Fast Dog e Fast Pizzas

Aqui tem uma rede de fast food chamad Valentine’s. Gostei!
São diversos tipos de hot dogs com grande variedade de acompanhamentos, os famosos “trios” que todo mundo já conhece. E tem trios especiais para inverno e janta: hot dog com sopa! Eu comi e gostei, nada mal.

De pizzas então são umas duas por quarteirão [ok, estou exagerando, é modo de falar tá bom?], e mais uma vez, sim, existe também as famosas opções de trios ou números.
Até agora não repeti a mesma lanchonete de pizza, só para ver se todas são boas mesmo... E gostei também, nada mal. Tem diversos tipos de massa, mas as mais comuns aqui, e provavelmente o que o público mais gosta, são as massas finas e as de pepperoni, poulet, tout garnie, québécoise, mexicaine, végétarienne e hawaïenne. Essas são as mais encontradas.


Galinhas, frangos e galinhas

Lembram do KFC?
Quem já passou dos vinte e tantos anos e morava nos grandes centros deve se lembrar do “baldinho do tiozinho com galinhas”, aqui, é o PFK, ou Poulet Frit Kentucky.

Aqui tem alguns.

E claro que já fui "ver como é que é".

Era uma das minhas refeições preferidas da minha época de cursinho. Fazia tantos anos que eu não via um, que quando entrei tomei um certo susto com a diversidade de opções que tinha e o modo de serviço e tudo mais, o que mais gostei foi o refil de refrigerante ou chá gelado no qual você podia pegar o quanto quissesse, que aliás, aqui é bem comum um tipo de chá gelado chamado Brisk Lemmon, tem um sabor um pouco diferente dos similares que temos no nosso glorioso [*].

Para minha surpresa, não é que existem outras redes similares?
Sendo bem verdadeiro, a primeira refeição de fast food aqui, foi a St. Hubert que fica na av. St. Hubert, é um PFK mais elegante... Muito bom.
A outra que eu experimentei foi a Au Coq, também seguindo o mesmo padrão.
O trio básico de todas essas redes é composto de uma fatia de pão tostado, salada que em alguns casos você escolhe o tipo, batatas fritas de diversos tipos, e os molhos que acompanham a carne, que também, possuem muitas versões: a carne com massa crocante estilo PFK, assada, empanada...

Parece que o pessoal aqui gosta de um poulet.

Sorte minha.

[*] Em tempo, para quem não sabe, quando for citado o "nosso glorioso", leia-se o nosso Brasil!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Les premières classes avec professeur Yuri Bozyan

O começo

Na real, a primeira aula não foi tão traumatizante assim, ele é um cara super cuidadoso e presta muita atenção em tudo, foi mais uma aula de reconhecimento, para ele ver de onde começaria o que eu gostaria de fazer e tudo mais, tudo ok.
Mas para alguém que estava há pelo menos uns seis ou sete meses sem treinar direito [a última vez que treinei foi para a apresentação de formatura do CEFAC, vai vendo...], foi algo bem dificil... Mas achei que tudo estava certo, afinal, não fiquei dolorido nem nada e até consegui fazer as coisas, mas o pior ainda estava por vir.

Já na segunda aula começamos logo no início a fazer exercícios só com um braço, tudo obviamente para direita e esquerda, ai a coisa complicou, terminei o dia dolorido e na terceira aula já tava meio que pedindo água...

Houve um momento em que eu sentei e quando ele olhou me disse:

“Karlusha! Non! Non! Marché, marché!”

Olha... é complicado, não tem descanso não, se não tá na faixa tem que estar fazendo algo, no caso, alongar. Mas logo me arrependi que no alongamento não conseguia descansar não... Em alguns momentos prefiria era estar fazendo força.
Aliás, dores à parte, ele tem técnicas muito interessantes para aquisição de flexilibilidade, bem efetivas.
Claro que algumas coisas com relação ao treinamento não mudam muito, alguns exercícios são os mesmos que eu já conhecia, mas tem um grande diferencial que é o “como” ajudar, “como” guiar o movimento, “como” forçar, “como” colocar o quadril e o joelho na posição correta, “quando” pedir para fazer o exercício, “quando” forçar um pouco... Coisas que só a experiência e o trabalho trazem.


Zadnie e Perednie

Foram essas as minhas primeiras palavras em russo que ele me ensinou!
Zadnie é a mesma coisa que prancha de costas, back lever ou prancha dorsal, e Perednie significa prancha facial, front lever ou prancha de frente ou à frente.
E obviamente “da” que significa sim, oui, yes...

Yuri Bozyan é um dos professores principais da ENC Montreal [L’École Nationale de Circus – Montreal, http://www.enc.qc.ca/index.asp].
Ele é um jovem senhor de apenas 61 anos de idade, que obviamente não parece, de pai armênio e mãe descendente de pai ucraniano e mãe russa.
Ele, como quase todo jovem do leste europeu, também foi ginasta até seus trinta e quatro anos mais ou menos, depois disso começou a trabalhar com circos e parou em 2001.
Sim! Isso mesmo, parou com uns cinquenta e quatro anos...
Assim que parou em 2001, já foi convidado pela ENC para ser professor, e acabou se tornando, junto com Victor Fomine, um dos professores principais da escola, responsável no início por diversas disciplinas e por fazer a base da escola.
Devido ao tempo em que trabalhou com circos e à sua história de vida, ele era responsável por diversas disciplinas: preparação fisica, classe especial de flexibilidade, faixas aéreas, equilíbrio sobre mãos, mão à mão [dinâmico e estático], percha e outras coisas que não conseguia entender... Mas até com arame esticado ele trabalhou!
Só explicando, imaginem vocês eu com meu francês tupiniquim tentando me comunicar com um cara que fala francês com sotaque russo, é difícil.

Sua esposa também dá aula na ENC, chama-se Irina Bozyan, ela tem descendencia russa, ucraniana e chinesa! Uma simpatia de pessoa, muito gentil e amável [ela me disse que adorou os docinhos que eu levei do Brasil], toda jovem também: cabelos curtos, fios compridos, desfiados e vi mais ou menos umas três cores, e muito, muito blush...
Ela é professora de equilíbrios, hoola hoops e Jogos icarios. Quando fui na ENC eu vi a aula dela de equilíbrio sobre mãos para os alunos dos primeiros anos, impressionantes: todos subiam para a parada, ficavam um tempinho, faziam variações... Isso com uma turma de dez a doze alunos iniciantes. Na aula cada um tinha seus tijolinhos para fazer os exercícios, quer dizer, não que era deles, mas a escola tinha o suficiente para cada um.

Voltando para o Yuri, depois de algum tempo na escola, já era o professor que mais dava horas aulas: enquanto a grande maioria dava vinte horas aulas por semana, uns poucos chegavam a trinta, ele dava pelo menos trinta e cinco horas aulas por semana. Depois, para aliviar a carga de trabalho dele [que na real, não mudou muito até hoje...] ele ficou com especialização em faixas aéreas e equílibrio sobre mãos e orientava a parte de preparação física e treinos para aquisição de flexibilidade.

Engraçado, ele não parece nem um pouco ter 61 anos...

Circo faz bem!