terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Mais um morador na casa [mensal, mas é]

David Caplam

Jovem senhor de cinquenta e seis anos se não me engano, com um visual meio “bicho grilo”, descedente de judeus que vieram para cá depois da primeira grande guerra mundial. De mãe descedente de poloneses e pai descendente de russos.
De cabelos compridos e brancos, barba grande e sempre com algum tipo de chapéu ou boina.
Outro que gosta muito da cultura latina, de lingua materna o inglês mas com um francês perfeito [inclusive me ajudando com conversação], compreende muito bem espanhol e um pouco de português, já viajou diversas vezes para o México, não sei se foram seis ou oito, sempre com o próprio furgãozinho.
Ele sempre vem todo começo de mês e fica uns dias aqui na casa do Normand. Explicando, ele trabalha com mel, ele a namorada e uns poucos amigos trabalham na produção de mel orgânico, eles fazem os contatos e vêm para Montreal todo início de mês fazer as vendas e novos contatos.
Ou seja, todo início de mês ele fica aqui mais ou menos durante uma semana e depois volta para a casa dele que é no interior entre as montanhas.

“Mas porque raios ele está falando desse tiozinho agora?”

Esses dias ele estava falando sobre alguns sintomas e males recorrentes em algumas pessoas do Canadá, e em especial onde ele mais conhece que é o Quebec.

Estavamos conversando sobre o excesso aqui: as pessoas tem tudo e querem ter tudo em quantidade e volume, comida, bebida, cigarro, máquinas, aparelhos... tudo em excesso [vejam, não é uma observação minha, é a de mais um quebecuan que veio me falar sobre isso].
David falou que ele gosta de ter apenas o que é essencial e o que precisa, em tudo: seja para comer, seja para trabalhar ou para o dia a dia. E enquanto falava, sempre procurava estabelecer comparações com o México, onde ele dizia que apesar das pessoas viverem em dificuldades financeiras e o sistema público ser caótico e precário as pessoas são mais felizes e tem mais alegria.



O social e o público no Canadá.

Aqui no Canadá é bem diferente na realidade brasileira e, com certeza, de qualquer país da América Latina.
Existe, por exemplo, no Canadá um departamento chamado bem estar social, em que, se por caso voce estiver desempregado, receberá por mês do governo algo em torno de CAD 400,00, é pouco até para os padrões daqui, mas é algo.
Sem contar que todo sistema de saúde é gratuito, com exceção de odontos e oftalmos, [com relação a oftalmo, excluem-se as operações que são custeadas pelo governo], um sistema de transporte eficiente e por um preço acessível.
Tudo relacionado às finanças e impostos e taxas é bem simples e direto. O governo é bem claro e todas as pessoas tem acesso ao modo de funcionamento, nas notas fiscais vem sempre descrito o valor sem imposto e com imposto. O cidadão aqui sabe quanto está pagando de imposto em cada compra que efetua.


Voltando à nossa conversa

David observou que apesar da precariedade do sistema publico ou a ineficiência desses tópicos, no México as pessoas vivem felizes e tem mais alegria do que as daqui que possuem muitas coisas além de vários benefícios se comparado à países da América Latina ou do dito terceiro mundo.

No Canadá de um modo geral, mais em Quebec especificamente, tem muita gente que se suicida, isso é um fato, triste mas é.
Sobre isso falarei mais para frente.

Um vazio existencial que precisa ser preenchido com coisas: máquinas novas, computador novo, muitas roupas, muita tecnologia, comida, bebida, diversão, prazeres... Muitas pessoas moram sozinhas, tem sua independencia financeira, alguns uma boa estabilidade financeira, muitos tem carro, mas... parece às vezes faltar algo.

O David disse algo muito interessante:

“I’m not a religious man, but, every day, when I wake up, I say: thanks... gracias por la vida!”

Continuou falando que as pessoas deveriam ser gratas pelo dom de existir, pelo dom de viver, de poder fazer coisas, de conhecer, aprender, ensinar, ver, ouvir, comer, sentir...

Eu traduzi para ele a minha versão, que é procurar sempre ter um coração grato, apesar de qualquer coisa.


Coincidências

Nesses dias eu recebi uma mensagem da minha namorada pelo emeio, e vi que tinha muita relação com o que estou escrevendo agora:

“...Estamos sempre reclamando de alguma coisa, eu sou assim, sempre tem algo que não esta muito bom, o cabelo, a pele, o salário, mesmo estando saudavel e sem dor...
Precisamos aprender a valorizar as coisas boas... a cama pra dormir e descansar, o trabalho que nos da o sustento, o alimento de cada dia, a condição que temos de comprar um remédio ou ir ao medico pra cuidar da saude...”


Como diz o ditado: quem tem ouvidos para ouvir... ou no caso, olhos para ler...
Não adianta, sempre vai ter alguém que vai ler e vai arranjar desculpas, pretextos e dizer: “ah, mas e se... ah, mas no meu caso... ah, mas porque eu.. ah, mas... ah, e se...”
Sempre, sempre, sempre.

Nós sempre achamos que se tivessemos mais dinheiro as coisas seriam melhores, se fizessemos uma plastica aqui e outra ali nos sentiríamos melhores, se tivessemos um carro melhor não teriamos tanta dor de cabeça, se tivesse uma casa na praia ou no interior poderíamos descansar mais, se ficassemos famosos e conhecidos na telinha tudo seria diferente.
Às vezes sempre achamos pretextos para justificar nossas incompetências e nosso medo de nos encararmos, de estar em contato com o que realmente somos, sentimos, pensamos e queremos.
E muitas vezes, necessariamente o que será melhor para nós não tem que ser algo bom... Só com o tempo amadurecemos e aprendemos [se quisermos] a ver que algumas coisas que nos acontecem são necessarias para que nós acordemos, ou percebamos erros e pontos fracos ou atitudes que devem ser mudadas.


As nossas necessidades

Sempre mudamos de idéia quanto ao que “seria bom” para nós e “melhoraria” nossa vida: primeiro reclamamos que não temos um carro, que se tivessemos um carro tudo melhoraria.
Conseguimos o carro.
Agora como tem muito transito, uma moto não seria uma má idéia... Todos os problemas se resumem ao transito e para a aquisição da moto.
Conseguimos a moto.
Mas como trabalhamos muito para pagar a prestação da moto [isso se as do carro estiverem quitadas], ficamos muito cansados... Ah... se tivessemos uma casa na praia...
Depois de um tempo, temos a casa na praia.
Pois é... muito trabalho para pagar muitas contas... prestações que devem estar faltando de algum auto, outras da praia... E os empréstimos feito no banco para a casa própria?
Mas é melhor trocar o carro, afinal, já faz um bom tempo que estamos usando ele e agora, indo para a praia, não dá para ter um modelo economico, precisamos um mais potente para levar família e amigos.
E trocamos de carro. Muitas vezes sem ter pago o outro.
Mas a praia já não é a mesma: afinal, além da rotina de todo esse tempo indo sempre para a praia, precisamos variar um pouco e ela já não é a mesma, muita gente, praia suja, transito todo fim de semana... O interior, o campo! Isso, boa idéia.
Lá vamos nós nos matar para conseguir ter um pedacinho bucólico no interior para podermos ter paz e sossego, longe de transito, poluição, barulho, stress...
Mas para ir para o interior... é melhor ter um outro carro, tipo um estilo jipe ou com tração nas quatro rodas, grande e que aguente o tranco e toda família, amigos e chegados.
Muito bem. Mais um carro, afinal, é melhor prevenir do que remediar, afinal, para ir para o interior não é nada fácil.
E finalmente temos nosso pedacinho de terra em algum lugar no interior.
Mas depois vemos que não aguentamos mais os pernilongos, borrachudos, bichos picando a gente, saudades dos grandes centros comerciais da cidade, as emissoras a cabo não funcionam, não tem nada... Os filmes da locadora são todos antigos e o acesso à internet não é tão bom e o laptop deu problema de novo, o Windows vista deu pau e voce perdeu todo HD mais uma vez. Ótimo fim de semana.
Puxa, de vez em quando ficar na cidade não é tão ruim. Só precisamos fazer alguma coisa para prencher nossas necessidades [?], dar uma volta, um passeio no final de semana ou nos feriados pela cidade.
Ai está na hora de trocar o antigo carro, melhor ter um modelo esportivo, mais bonito, só para um lazer...
Mas poxa, não dá para sair pagando de bonitão, de bem sucedido com algumas "musculos" a mais que não existem no livro de anatomia [aqueles que fizeram voce perder algumas calças por não entrarem mais], então, nada como uma plástica ou lipoaspiração para dar um upgrade no visual. Afinal, imagem é tudo... não é?
Afinal o que as pessoas podem pensar de nós é algo muito importante. Não é?
E assim vai nosso ciclo de “necessidades”, e cada uma delas vai nos levando à outra que nos leva à outra e que leva à outra e então surge a oportunidade de ter isso e depois aquilo...
E continuamos buscando coisas [dinheiro-coisa, pessoas-coisas, objetos-coisas, auto-coisas, móveis-coisas, sexo-coisa, relações-coisas, coisas-coisas...] para preencher as nossas “necessidades”.

Talvez estamos nos esquecendo de algumas coisas.

De ouvir as nossas reais necessidades, de nos preocupar mais com as pessoas que realmente nos amam e nos preocupar em ser belos para quem nos ama e amamos.

Ou ainda, sermos belos para nós mesmos.

Um comentário:

Kika Del Piero disse...

Pois é.. a história da casa da praia é isso mesmo...
Faz dois anos que não piso na minha.. e antes disso.. fizeram uns bons 3 anos...
Mas quando pensaram em vender ela fiquei mal.. afinal é um algo mais que temos.. apesar de eu nunca ir..
Mas quem sabe eu troco ela por uma casa no campo..